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A dor de quem salva: protetores animais enfrentam luta silenciosa e desgaste da saúde mental

Protetores relatam como a psicoterapia é fundamental para a continuidade dos trabalhos

A rotina de quem atua na causa animal vai além dos resgates e adoções: envolve abandono, maus-tratos e sofrimento diário, uma realidade que também afeta a saúde mental dos protetores. Para muitos, é preciso mais que a vontade própria, mas também acompanhamento profissional psicológico para lidar com a carga emocional dessa realidade enfrentada. Em Cuiabá, a ativista Pâmela Dorane Souza Rodrigues Garcia, de 29 anos, conhece de perto esse peso emocional. Há seis anos na causa, ela viu a própria vida tomar um rumo inesperado enquanto agia movida pela empatia e pela coragem de salvar animais em situação de vulnerabilidade.

Annie Souza/RD News

Projeto Lunaar

Em um malabarismo profissional, Pâmela se divide entre a faculdade de música, o trabalho como social mídia e a proteção animal. Nas poucas horas vagas que sobram dos seus dias, ela ainda faz entrega por aplicativo para complementar a renda e custear a alimentação e cuidados médicos de 16 gatos que aparecem em sua porta todos os dias.

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Pâmela já se viu imersa em dívidas e com seu emocional abalado, na tentativa de salvar os gatos abandonados ou doentes que apareciam. Ela foi gradativamente adoecendo e fazendo empréstimo de grandes quantias de dinheiro. A dívida chegou na casa dos R$11 mil.

“Eu tive que vender móveis da minha casa, tive que vender computador. Foi uma fase muito difícil, eu cheguei a ficar de cama quase um mês na minha casa, porque não sabia o que fazer. Pensei em ir embora, em desistir de tudo”, relembra.

Arquivo Pessoal

Pamela Dorane

 A ativista Pâmela Dorane 

Para se reerguer desse “fundo do poço”, a protetora também contou com ajuda de seu companheiro e de sua família, que se uniram para ajudar a pagar as dívidas. Além disso, a psicoterapia também foi essencial para que ela voltasse a trabalhar e se reorganizar emocionalmente.

Para Marlon Luiz de Almeida Figueiredo, de 37 anos, que é agente municipal da Defesa Civil em Cuiabá, sua entrada na causa animal foi marcada por uma depressão curada com apoio dos animais. Em gratidão, ele decidiu trilhar o caminho da proteção animal que já dura 11 anos. Mas a cura não botou um ponto final na necessidade de acompanhamento psicológico, Marlon ainda precisa tomar psicotrópicos e segue com a terapia para lidar com momentos potencialmente devastadores, assim como Pâmela.

Arquivo pessoal

Protetor Marlon

 Ativista Marlon Figueiredo

Mesmo com acompanhamento psicológico, Marlon também teve sua vida financeira afetada pela vontade de ajudar. Com dívidas atuais que chegam na casa dos R$ 16 mil, ele está com nome negativado e hoje tem pendências com várias clínicas veterinárias da Capital.

De acordo com a neuropsicóloga Ligia Mendes, o endividamento de protetores ocorre pelo sentimento de querer ajudar, aliado ao forte senso de empatia, que gera ações impulsivas.

Pra eles, quando não conseguem ajudar é como se não fossem capaz de ajudar ninguém

“Protetores são pessoas que costumam ter um forte senso de responsabilidade e empatia pela fragilidade da causa animal, e que pra eles, quando não conseguem ajudar é como se não fossem capaz de ajudar ninguém, o que gera decisões impulsivas independente da consequência, mas a razão pela qual fez, é justificável, e nesse movimento ocorrem perdas muito grandes financeiramente”, explica.

Alta demanda e a dor de precisar escolher 

Nos quatro primeiros meses de 2026, a Secretaria Adjunta de Bem-Estar Animal (SABEA) recebeu 531 denúncias envolvendo suspeitas de maus-tratos, abandono e negligência, o que significa uma média diária de cinco a oito denúncias. Para a pasta, o dado indica uma alta demanda na Capital.

Janeiro foi o mês com mais registros de denúncias, com um total de 221. O  solicitou dados de 2025, para entender se a demanda animal aumentou de um ano para outro, mas a pasta não forneceu os dados.

Para os protetores animais, essa demanda também chega por meio de inúmeros pedidos de ajuda. São nesses momentos em que se vê o sofrimento animal, somada à falta de apoio financeiro, que muitos protetores precisam fazer uma escolha: qual vida salvar.

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“Se levarmos em consideração todo o cenário de frequente exposição ao estresse, frustrações, críticas, a constante sensação de impotência dessas pessoas, muitas vezes dando tudo de si mas ainda não sendo o suficiente pra que se resolva, é um cenário que colabora para a presença de sintomas ansiosos e depressivos”, explica Ligia Mendes.

Para Marlon, que já chegou a ter 60 gatos em sua casa, é na necessidade de precisar escolher qual animal salvar que ele se sente impotente diante da realidade de maus-tratos e abandono animal.

À frente do Projeto Lunaar, Carla Fahima, que também é advogada com atuação no direito animal, diz que os pedidos de ajuda chegam diariamente, mas nem todos podem ser atendidos.

Annie Souza/RD News

Carla Fahima Projeto Lunaar

“As demandas às vezes são as mesmas, mas às vezes também são demandas diferentes. Um pedido de ajuda no Instagram, um pedido de ajuda no WhatsApp, e é todo dia, toda hora, não tem horário, não. As pessoas mandam mensagem 24 horas por dia, quando elas veem um animal, quando ela quer doar o animal dela”, conta.

Criado em 2017, o projeto que sobrevive de doações, hoje é responsável por 465 animais, incluindo gatos e cachorros, e tem um gasto mensal de ao menos R$70 mil. Com esse cenário, a associação optou por não atuar em resgates, somente em casos urgentes.

Educação e conscientização desde a infância

Annie Souza/ RD News

projeto Lunaar gatos

Tanto para Carla, como para Malon e Pâmela, essa realidade de abandono e maus-tratos aos animais exige medidas no âmbito da educação, que devem ter início desde a infância.

Além de ensinar respeito, empatia e cuidado, Pâmela e Marlon também acreditam que é necessário o endurecimento das punições às pessoas que maltratam animais.

“Eu acredito que para combater os maus-tratos, tem que fiscalizar e tem que punir. Muitas vezes, a pessoa vai para a delegacia e sai pela porta da frente. O que tem que ser feito com essas pessoas? Punirem elas! E onde vai doer? No bolso. Então, se ela for punida no bolso, ela com certeza vai pensar e repensar, porque, infelizmente, muitas vezes as pessoas praticam maus-tratos sabendo da impunidade”, afirma Marlon.

Mas para Pâmela, é preciso mais que multas, segundo ela, para combater essa realidade, é preciso penalidades mais rígidas.

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“A penalidade tem que aumentar. Inclusive, eu sou a favor de que aumente porque tem muitas pessoas que não levam a sério a causa e acham que é só pagar uma multa e acabou”, destaca.

FONTE: RD NEWS

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