Mão de obra vira gargalo para o avanço do agro brasileiro

A falta de trabalhadores no campo deixou de ser apenas uma dificuldade pontual de contratação e passou a representar um dos principais obstáculos à expansão da agropecuária brasileira. É o que aponta estudo inédito da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), elaborado em parceria com o Cepea/Esalq/USP. Segundo o levantamento, 44,5% dos produtores consideram a mão de obra o principal desafio enfrentado no campo, à frente de custos, clima e preços.

O diagnóstico mostra que o problema envolve tanto a quantidade de trabalhadores disponíveis quanto a qualificação e a capacidade de retenção desses profissionais. 94,8% dos produtores entrevistados relataram dificuldades para contratar, enquanto 84,3% afirmaram trabalhar com um quadro de pessoal abaixo do necessário.
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As consequências já aparecem diretamente na produção. Entre os produtores que identificaram impactos, 48,7% apontaram atrasos nas operações; 48% disseram ter adiado ou desistido de planos de expansão; 43,9% registraram aumento dos custos com mão de obra; 42,6% anteciparam investimentos em mecanização e automação; e 42% relataram redução da produção.
Tecnologia como resposta
A escassez de trabalhadores ocorre justamente em um setor que passou por uma profunda transformação tecnológica. Entre 1995 e 2025, a produtividade por hora trabalhada na agropecuária brasileira cresceu 515%, enquanto a produtividade do conjunto da economia avançou 28%.
No período de 2012 a 2025, a área agrícola aumentou 43,2%, mas o número de empregados por 100 hectares caiu 38,5%. Para a economista da CNA Isabel Mendes, parte dessa mudança é consequência direta da dificuldade de encontrar trabalhadores.
“A parte da redução da intensidade de trabalho é também resposta à escassez, ou seja, o produtor rural optou por investir em tecnologia para aumentar a produtividade e oferecer melhores salários”, explicou.
A pesquisa mostra que 88,8% dos produtores buscaram alguma alternativa para enfrentar a falta de mão de obra. Entre as estratégias estão investimentos em tecnologia, ações para atrair e reter trabalhadores, mudanças na atividade produtiva e ampliação da terceirização.
A valorização salarial também se tornou uma ferramenta de competição por profissionais. Entre 2021 e 2025, os salários do agro cresceram 35%, acima dos 24,8% registrados nos demais setores. No Centro-Oeste, o avanço chegou a 68%, enquanto os salários urbanos aumentaram 16%.
Um desafio que vai além do campo
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O estudo aponta que a redução da mão de obra rural está relacionada a transformações estruturais da sociedade, como o aumento da escolarização, a expansão das oportunidades de emprego fora do agro e o processo de urbanização.
A questão dos programas de transferência de renda também entrou no diagnóstico. Segundo a pesquisa, 83% dos produtores perceberam algum efeito desses programas sobre a disponibilidade de trabalhadores, enquanto 63,2% afirmaram ter vivenciado situações em que candidatos recusaram vagas para não perder o benefício.
O levantamento estima que, entre 2018 e 2025, o aumento do valor e do número de beneficiários do Bolsa Família reduziu a força de trabalho entre 2,2 e 4,7 pontos percentuais no país. No agro, a redução estimada foi de 3,07 pontos percentuais.
Durante o debate sobre o tema, especialistas defenderam que o desafio não está na existência dos programas sociais, mas no desenho das políticas e nos incentivos criados para a entrada e permanência no mercado formal. A proposta é tornar a proteção social mais compatível com o trabalho, evitando que a formalização represente perda abrupta de benefícios.
Espaço para avançar
Apesar dos ganhos expressivos de produtividade, o agro brasileiro ainda apresenta distância em relação às economias mais desenvolvidas. Em 2024, a produtividade agropecuária do país foi estimada em US$ 12,7 mil por trabalhador, equivalente a 43% da média das nações de alta renda, de US$ 29,3 mil. Nos Estados Unidos, o indicador alcançou US$ 85 mil.
Os números revelam, portanto, um paradoxo: o campo brasileiro produz cada vez mais com menos trabalhadores, mas precisa elevar ainda mais sua produtividade para sustentar o crescimento.
Nesse cenário, a escassez de mão de obra tende a acelerar a mecanização, a automação e a adoção de novas tecnologias. Ao mesmo tempo, aumenta a necessidade de qualificação, melhores salários e condições capazes de tornar o trabalho no campo mais atrativo.
Para o agro, o desafio já não é apenas produzir mais. É encontrar, preparar e manter as pessoas capazes de operar uma atividade cada vez mais tecnológica e sofisticada.
FONTE: CENÁRIO MT





