
escravidão em Mato Grosso foi estruturada sobre um cotidiano brutal, marcado por violência física, humilhações constantes e práticas de tortura que moldaram as relações sociais e econômicas do estado por mais de um século. A compreensão desse cenário se aprofunda com os registros históricos do Arquivo Público de Mato Grosso, revelando uma sociedade que tratava a dor como instrumento de controle, e os corpos negros como mercadorias a serem castigadas para produzir obediência.
Como sintetiza o professor e historiador da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Domingos Sávio da Cunha Garcia: “O cotidiano do regime escravista é um cotidiano de violência […]. Um regime de violência constante e de resistência também constante”.
The New York Public Library Digital Collections

Um dos trechos mais significativos dos arquivos descreve uma punição contra José, um escravo que levou “correadas” simplesmente por não acordar para a “reza do amanhecer”. A simples falta a um ritual religioso – imposto pelos senhores – era suficiente para desencadear castigos físicos imediatos, aplicados pelos feitores nos espaços de trabalho, como carpintarias e engenhos.
Outro caso detalha um escravo, chamado Josué, que trabalhava como “guia de bois” e que também foi alvo de “correadas” porque não havia amarrado os animais assim que terminou o trabalho, fazendo com que estes fossem “desencangalhados”, ou seja, ficassem soltos.
Arquivo Público

Registros que mostram as punições recebidas pelos escravos José e Josué
Há também registros de escravos que, além dos castigos e trabalhos forçados, eram privados de comida, uma estratégia que combinava fome e violência física como forma de dominação.
Um escravo chamado Rufino chegou a denunciar sua senhora, Dona Delfina Marques Fontes, por não lhe dar comida por quase um mês. “E eu já não posso mais aguentar a fome e pedindo meu amparo a Deus”, relatou Rufino em um pedido ao Chefe de Polícia da província.
Segundo o arquivo, eram raros os escravos capazes de denunciarem os maus-tratos, visto que a grande maioria não “conhecia as letras”, ou seja, não sabia escrever. Esses poucos escravos letrados, ao recorrerem à Justiça, demonstravam que conheciam os caminhos para combater as arbitrariedades que sofriam, já que cada gesto, palavra ou comportamento podia resultar em açoites, amarrações ou castigos impostos, tudo isso diante dos demais cativos – como forma de mostrar o que aconteceria quando as ordens eram desobedecidas.
Arquivo Público

Correspondência do escravo Rufino, onde relata a fome que passava há quase um mês
“O que aconteceu aqui em Mato Grosso não é diferente do que acontecia em outras regiões do Brasil. Ainda que você, eventualmente, possa diferenciar do ponto de vista da intensidade – um pouco mais ou um pouco menos. Mas, no geral, o quadro é bastante semelhante ao resto do país e do mundo: violência constante”, destacou Garcia.
Reconstruir a história
O arquivo reforça que não compreender a dimensão da escravidão no país é repetir equívocos históricos: “Nunca conseguiremos fazer um resgate real da história da escravidão se continuarmos achando que o escravo foi um ser passivo e conformado com sua sorte”.
Garcia defende que trazer esses relatos à luz é fundamental e não se trata apenas de resgatar o passado, mas também o presente e o futuro, numa forma de “acerto de contas”.
“Queimar as documentações não vai apagar esse triste passado nosso. Temos que fazer o contrário. Temos que trazê-la à luz do dia. Dar visibilidade à ela. Torná-la efetivamente conhecida. É a melhor forma da gente resgatar o passado e acertar as contas com ele”, destacou Garcia.
“Queimar as documentações não vai apagar esse triste passado nosso. Temos que fazer o contrário. Temos que trazê-la à luz do dia. Dar visibilidade […] É a melhor forma da gente resgatar o passado e acertar as contas com ele”
Domingos Sávio da Cunha Garcia
Fonte: RD News









